Gelo exposto do polo norte de Marte tem menos pó do que se estimava
Investigação publicada na npj Space Exploration revê em alta a pureza do gelo exposto no polo norte marciano, com o máximo das estimativas a cair de 22% para 0,4% na cratera Korolev.

Um novo cálculo reduziu de até 25% para menos de 3% em massa, em regra, a proporção de pó no gelo exposto das áreas estudadas do polo norte de Marte. O máximo estimado no novo modelo ficou em cerca de 2,2%, e o contraste é maior na cratera Korolev: onde trabalhos anteriores apontavam cerca de 22%, a nova análise indica aproximadamente 0,4% na camada superior e 0,02% no gelo de grão grosseiro situado abaixo. O estudo foi publicado na npj Space Exploration.
A divergência não decorre de novas observações, mas da forma como as propriedades da superfície são reconstruídas a partir do espectro. O brilho do gelo depende do tamanho dos grãos, do tamanho e da concentração das partículas de pó e da disposição das camadas. O método predominante tinha sido concebido para o solo lunar e, testado na Terra, produzia resultados aparentemente errados; a alternativa adapta técnicas usadas há décadas no estudo da neve e do gelo terrestres, desenvolvidas por Steve Warren, professor emérito da Universidade de Washington. Os cálculos usaram raio de pó de cerca de 1,6 micrómetro e combinaram dados dos instrumentos OMEGA, a bordo da Mars Express, e CRISM, a bordo da MRO, além de medições da sonda Phoenix, que recolheu amostras junto ao polo norte em 2008.
Pari Mohan, da Universidade de Edimburgo, e Aditya Khuller, associado à Universidade de Washington e cientista investigador sénior no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, propõem uma estrutura em que camadas relativamente limpas, com 0,05% a 0,5% de pó, alternam com faixas mais sujas, de dezenas por cento — estas últimas correspondendo, segundo os autores, a camadas-marcadoras no interior da espessa sequência estratificada e não ao gelo exposto à superfície. O novo quadro concorda melhor com os dados de radar sobre a cobertura de gelo do norte.
Os autores explicam igualmente as variações sazonais de brilho: no inverno forma-se uma camada de geada mais poeirenta, com cerca de 1% a 2% de pó, que sublima no verão e deixa à vista gelo mais antigo, de grão mais grosseiro e mais limpo. Na cratera Korolev, essa transição começa mais cedo por diferenças de latitude e de microclima. Khuller observa que o gelo poeirento aquece mais e se vaporiza mais depressa em Marte. Estimativas mais precisas servem para modelar o balanço energético polar, a estabilidade do gelo e a evolução climática de Marte.
O trabalho liga-se a investigação anterior do mesmo grupo, segundo a qual camadas de pó e gelo poderiam reunir condições para a vida, com bolsas de água de degelo retendo luz solar e nutrientes do pó. Khuller espera alargar os métodos revistos a outras regiões do planeta.